“A idade gestacional e o peso de nascimento são os fatores de maior impacto na mortalidade e no risco de sequelas em recém-nascidos (RN). De acordo com a Organização Mundial da Saúde ([WHO], 1980) crianças nascidas antes da 37ª semana de gestação (<259 dias) e com peso <2.500g são consideradas prematuras. Considera-se prematuro moderado o bebê que nasce entre a 31ª e a 36ª semana gestacional e prematuro extremo o bebê que nasce entre a 24ª e a 30ª semana gestacional. Em relação ao peso, é definido como prematuro muito baixo peso (MBP) o bebê que  nasce com peso ≤1.500g, e prematuro extremo baixo peso (EBP), o bebê que nasce com peso ≤1.000g.
Estudos demonstram que vem ocorrendo um aumento absoluto no número de RN com MBP. Em relatório recente da Organização Mundial da Saúde ([WHO], 2012), o Brasil encontra-se na décima posição, com 9,2% de nascimentos prematuros, e estima-se que a prevalência de nascimentos prematuros chega a 11,8%, sendo as Regiões Sudeste e Sul as que apresentam maiores números, 12,6% e 12,0%, respectivamente (Matijasevich et al., 2013).
O nascimento prematuro é consequência de diversos fatores. Dentre os fatores que conferem mais risco para o nascimento prematuro destacam-se o baixo nível socioeconômico, a baixa educação parental (Mellier, 1999; O’Brien, Soliday, & McCluskey-Fawcett, 1995), a ausência de companheiro, o apoio e recurso social limitados, os cuidados perinatais escassos (Johnson, 2007; Raatikainen, Heiskanen, & Heinonen, 2005; Waldron, Hughes, & Brooks, 1996; Widerstrom, 1999), a idade das mães – mães adolescentes ou com mais de 35 anos (Raatikainen et al, 2005; Widerstrom, 1999) e o uso de álcool, tabagismo e outras drogas (Widerstrom, 1999).
É válido salientar que a imaturidade cerebral ocasionada pela interrupção dos estágios desenvolvimentais pode levar a modificações tanto em relação à anatomia quanto à estrutura funcional, as quais influenciam a maturação desse órgão posterior ao nascimento (Zomignani, Zambelli, & Antonio, 2009). Todavia, mesmo com o desenvolvimento tecnológico que possibilita o mapeamento de diferentes áreas cerebrais, não há precisão acerca de quais regiões e estruturas correspondem a determinadas funções (Sternberg, 2008). Sabe-se que o córtex cerebral é responsável por receber impulsos e processar informações sensoriais e motoras, envolvido com fenômenos psíquicos e cognitivos. Quando o córtex cerebral é lesionado ou quando a evolução cerebral anatômica é interrompida devido ao nascimento prematuro, alterações no comportamento social e afetivo e déficits nas funções cognitivas podem ser encontrados (Boardman & Dyet, 2007; Cheong et al., 2009; Hart, Whitby, Griffiths, & Smith, 2008; Huppi et al., 2001; Inder, Wells, Mogridge, Spencer, & Volpe, 2003; Miller et al., 2002; Sternberg,2008). Corroborando esses dados, pesquisas com prematuros revelam altos índices de paralisia cerebral, deficiência intelectual, dificuldades de aprendizagem, disfunção executiva, transtorno de déficit de atenção e dificuldades sócioemocionais (Potijk, De Winter, Bos, Kerstjens & Reijneveld, 2012; Teune et al., 2011).
De acordo com Lamiell (2003), o Quociente de Inteligência (QI) é uma medida utilizada para estimar capacidades cognitivas e intelectuais, que abrangem o conhecimento geral e o raciocínio abstrato. Entre as crianças nascidas antes de 32 semanas de gestação ou com peso inferior a 1.500g ao nascer, muitas pesquisas têm descrito uma série de problemas cognitivos, paralisia cerebral e deficiência intelectual (Mikkola et al., 2005), quando comparados com seus pares a termo (Aarnoudse-Moens, Smidts, Oosterlaan, Duivenvoorden, & Weisglas-Kuperus, 2009; Aylward, 2002; Grunau, Whitfield, & Davis, 2002; Elgen & Sommerfelt, 2002; Hack et al., 2002; Lee, Yeatman, Luna, & Feldman, 2011; Litt, 2012; Pritchard et al., 2009; Taylor et al., 2011; Whitfield, Grunau, & Holsti, 1997).
A Escala de Inteligência Wechsler para Crianças (WISC), um dos principais instrumentos utilizados para avaliar as habilidades cognitivas gerais, a qual integra em seus subtestes medidas avaliativas de domínios cognitivos específicos, a escala de QI Geral (Full Scale IQ; FSIQ). Entretanto, Bill, Sykes e Hoye (1986) referem ser contra a prática de combinar e comparar escores de uma variedade de testes que diferem no nível de dificuldade e trazem como exemplo o WISC III e o WISC-R. Ainda, apontam que o teste para avaliar QI é o método mais utilizado para a difícil tarefa de avaliação do estado intelectual.
Como visto, os efeitos da prematuridade não são restritos ao QI geral e muitos sugerem que os efeitos são observáveis em áreas relacionadas às Funções Executivas (FE’s). Opiniões divergem quanto ao que constitui as FE’s, entretanto, pode-se afirmar que vários elementos estão inter-relacionados, dentre eles, o planejamento, a atenção, a memória de trabalho, a flexibilidade cognitiva, o controle inibitório, a velocidade de processamento, a fluência verbal, o processamento cognitivo e os estados emocionais. Caracterizam-se pela habilidade autônoma de um indivíduo engajar-se em atividades direcionadas a certas finalidades (Blair, 2006; Gazzaniga, Ivry & Mangun, 2002; Gil, 2002; Malloy- Diniz et al., 2008).
Ao avaliar as FE’s em prematuros, pesquisadores encontraram resultados significativamente inferiores às crianças controles. Farooqi, Hägglöf e Serenius (2013) encontraram tamanhos de efeito moderado (η²=0.10). Nesse mesmo sentido, Aarnoudse-Moens, Duivenvoorden, Weisglas-Kuperus, Van Goudoever e Ossterlaan (2011) utilizaram a Cambridge Neuropsychological Testing Automated Battery e, pelo modelo das diferenças de médias padronizadas, identificaram tamanhos de efeitos pequeno na memória de trabalho (SMD=0.3) e moderado para a fluência verbal (SMD=0.5). Já Rose et al. (2011) observaram tamanho de efeito médio na memória de trabalho (η²=0.13) e na velocidade de processamento (η²=0.16), e pequeno (η²=0.04) na atenção seletiva.
As FE’s estão fortemente relacionadas às dificuldades de aprendizagens escolares em crianças pré-termos, são focos de importantes estudos e de acordo com uma revisão sistemática recente o Wide Range Achievement Test, Third edition (WRAT 3) é o teste mais usado para avaliar o desempenho acadêmico em aritmética, leitura e escrita (Moreira, Magalhães & Alves, 2014). Em um estudo sueco, através do instrumento “Fiveto Fifteen”, Farooki et al, (2013) foram identificadas diferenças significativas, com maior tamanho de efeito no desempenho de matemática (η²=0.16; p<0.001) e tamanho de efeito pequeno no desempenho de leitura/escrita (η²=0.07, p<0.005). Por outro lado, Lee et al. (2011) observaram piores resultados nos desfechos de leitura e linguagem no grupo de 12 prematuros, com tamanho de efeito forte (η²=0.59) ao covariar tais desfechos com QI verbal. Após o controle do QI verbal, a prematuridade contribuiu para o modelo com tamanho de efeito moderado (η²=0.19). Com relação as habilidades aritméticas, observa-se tamanho de efeito forte (η²=0.73) no estudo de Taylor et al., (2006) e moderado(η²=0.18) em Taylor et al. (2002).”
Todas essas informações são da monografia de: Lissia Ana Basso. Impacto da Prematuridade no Desenvolvimento Cognitivo de Crianças em Idade Escolar. 2014. Link para leitura completa: http://repositorio.pucrs.br/dspace/bitstream/10923/7046/1/000465433-Texto%2bParcial-0.pdf
Então, como podemos observar, o desenvolvimento cognitivo ou neuropsicológico é prejudicado em crianças prematuras; esses prejuízos são comumente observados em crianças com idade pré-escolar, pois há dificuldades no processo de aprendizagem, assim como na linguagem, atenção, memória, inteligência e nas funções executivas: organização, planejamento, controle inibitório, memória operacional, flexibilidade cognitiva, entre outras. É nesse aspecto que o psicodiagnóstico torna-se fundamental, com a aplicação de testes psicológicos, exclusivos para psicólogos e outros instrumentos, é possível identificar quais os níveis de dificuldades e potencialidades dessas crianças para que melhor seja realizado a intervenção a posteriori; sabendo que, quanto mais cedo o diagnóstico, mais adequada a intervenção, pois a mesma irá estimular as áreas cognitivas comprometidas pela prematuridade, a fim de proporcionar mais qualidade de vida e de aprendizagem dessas crianças. É por estes e outros motivos, que se faz necessário em um processo de avaliação psicológica, a entrevista de anamnese com os pais, mesmo que o paciente já seja um adolescente, pois muitas vezes, as dificuldades de aprendizagem estão correlacionadas com outros fatores: biológicos, hereditários, internalizantes (emocionais), externalizantes (comportamentais), entre outros.
Se você se identificou com o texto e percebe a necessidade da realização de uma avaliação psicológica (psicodiagnóstico) em seu filho, entre em contato conosco:
🌸Tamires Alencar de Souza
Psicóloga CRP 11/09543
Esp. em Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico
Terapeuta Cognitivo Comportamental em Formação
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