Stress é um conjunto de reações que o organismo emite, quando é exposto a qualquer estímulo que o irrite, excite, amedronte e/ou o faça feliz (Lipp, 1984).

Segundo Lipp e Romano (1987), o stress infantil assemelha-se ao do aduto em vários aspectos, podendo gerar sérias consequências, no caso de ser excessivo. A reação da criança frente a eventos excitantes, irritantes, felizes, amedrontadores, ou seja, que exijam adaptação por parte dela, inclui mudanças psicológicas, físicas, químicas no seu organismo.

É reconhecido que experiências e “stress” severo na infância podem produzir resultados psicofisiológicos duradouros, que podem perdurar na vida adulta (Udwin, 1993). Quando a criança é exposta a um evento estressante, seja ele bom ou ruim, ela entra em estado de alerta, ocorrendo assim, uma ativação do sistema nervoso simpático e da glândua pituitária, por meio do hipotálamo. Ao mesmo tempo, ocorre a ativação das glândulas supra-renais que liberam adrenalina, preparando a criança para a reação de “luta e fuga” e provocando a inibição das atividades vegetativas, o que pode ocasionar mudanças nos hábitos alimentares (perda de apetite) e alterações no sono (pesadelos, insônia).

Grünspum (1980), relatando sobre os distúrbios psicossomáticos, afirma que na criança também é possível o estabelecimento de graus de respostas nos diferentes sistemas do organismo até atingir os distúrbios psicossomáticos, considerando as fases de stress descritas por Selye (1965). Propõe o seguinte esquema:

Sistema de Atenção: hipervigilância na fase de alarme, contrapondo-se nas demais fases com incapacidade pra manter a atenção e rendimento. (Quando a criança está nessa fase pode apresentar sinais na aprendizagem, déficit de atenção, que por ora assemelham-se a um distúrbio cognitivo, mas que na verdade, pode ser resultado de um índice de stress a qual tem vivenciado, por isso a importância da avaliação psicológica adequada, com instrumentos psicológicos validados para a faixa etária).

Sistema de Cognição: aparecimento de pesadelos, pensamentos repetitivos e ruminação de ideias na fase de alarme, com memória prejudicada, perda de realidade, fantasia e substituição da realidade, nas fases subsequentes. (Esses sintomas é muito comum em testes e técnicas projetivas, mais uma vez, reforçamos a importância no processo psicodiagnóstico ou de avaliação psicológica a investigação de traços de personalidade).

Sistema Emocional: na fase de alarme com crises de medo, birra e reações de ansiedade. Nas outras fases, apatia. (Essas características dependendo da frequência, pode estar culminando para o desenvolvimento de comorbidades, ou seja, outros transtornos provocados por alto índice de stress, vale a pena investigar no processo psicodiagnóstico a partir de quando esses fatores iniciaram e o que tem provocado tais comportamentos na criança).

Sistema Somático: distúrbios psicossomáticos, na fase de alarme. Sintomas corporais regressivos, nas demais fases. (É importante perceber que todas as fases do esquema é possível identificar quando o stress ainda está iniciando na vida da criança, pois ela pode apresentar comportamentos de viés atencional, cognitivo, emocional ou somático, ou seja corporal, já que a fase de alarme é a primeira fase do stress, “ocorre esta fase quando o organismo depara-se com um estressor e é mobilizado, semelhantes às reações de “luta e fuga” descritas por Cannon”).

Estas considerações feitas por Grünspum alertam para a necessidade de observação e de conhecimento do que acontece com a criança, o que pode justificar mudanças comportamentais importantes para o seu desenvolvimento.

Lipp e Romano (1987) descrevem, a partir de observações clínicas, os sintomas do stress infantil que, assim como no adulto, pdem ser psicológicos, físicos ou ambos. Segundo estas autoras, as reações ao stress infantil, também, são divididas em psicológicas e físicas:

Possíveis efeitos psicológicos: ansiedade, terror noturno, pesadelos, dificuldades interpessoais, introversão súbita, desânimo, insegurança, agressividade, choro excessivo, angústia, depressão, hipersensibilidade, birra e medo excessivo.

Algumas possíveis sensações físicas: dores abdominais, diarréia, tique nervoso, dor de cabeça, náusea, hiperatividade, enurese noturna, gagueira, tensão muscular, o ranger dos dentes, dificuldade para respirar e distúrbios do apetite.

De acordo com Elkind (1981), a energia exigida, para que a criança se ajuste às mudanças que ocorrem em sua vida, cria um desgaste para o organismo, que pode desencadear sérias doenças. O autor acrescenta que, quanto maior o número de mudanças que a criança tiver que enfrentar num período de doze meses, maior a probabilidade de desgaste do organismo, em consequência do déficit de energia adaptativa, aumentando as chances da ocorrência de problemas de saúde. Estas considerações são baseadas nos estudos de Holmes e Rahe (1967), que revelam que as mudanças de vida, em um certo período, contribuem fortemente para o desenvolvimento de doenças, pois criam exigências adaptativas excessivas. (É nesse aspecto que analisamos em entrevista de anamnese as queixas principais que levam a criança para a avaliação psicológica, visto que as mudanças no contexto familiar, escolar, social e outros podem desencadear o aparecimento do stress).

Nestes estudos é destacado como principal efeito do stress infantil o desenvolvimento de doenças como asma, doenças dermatológicas, cefaléia, anorexia, úlceras e obesidade. Também, são aparesentadas evidências, que relacionam o stress infantil com a baixa do sistema imunológico, o que deixa a criança mais suscetível a gripes e resfriados. Estes estudos revelam, ainda, a associação do stress excessivo com desordens do pânico, como agorafobia e desordens psiquiátricas severas. Apontam, também o aparecimento de distúrbios psicológicos e comportamentais, como deliquência, abuso de drogas, suicídio, depressão, alteração do humor, alteração na autoestima, no desempenho, hiperatividade, agressividade, impulsividade e apatia, associados a situações desgastantes para a criança.

Outros estudos com crianças têm mostrado a ligação entre adversidades afetivas na infância (consideradas como estressores) e o desenvolvimento de neuroses, incluindo déficit de afeto positivo, instabilidade emocional, baixa autoconfiança, enfraquecimento cognitivo e psicopatologias, principalmente, depressão, ansiedade, uso de álcool e drogas, na adolescência e vida adulta (Higley e Suomi, 1996).

Pesquisas revelam ainda, alta correlação entre stress excessivo na infância e disfunção do sistema límbico em adultos, alteração do EEG e anomalias neurobiológicas, consideradas alterações neurológicas irreversíveis. Nestes estudos, foram examinados grupos de adultos que revelam terem tidos problemas na infância, caracterizados como permanência sob efeito de estímulos estressores, durante período prolongado, principalmente relacionados a abusos sexuais, físicos e psicológicos (Ito et al. 1993).

Desse modo, independentemente da faixa etária, se você se percebe com índices alterados de estresse ou se identificou com algumas dessas características físicas ou emocionais, procure um psicólogo para intervenção apropriada ou avaliação psicológica que possam lhe dá orientações sobre o melhor tratamento para você no momento. Se os mesmos se adequam aos comportamentos do seu filho, tome a mesma atitude para prevenção do agravamento ou desenvolvimento de outras problemáticas maiores.

Texto comentado da Escala de Stress Infantil – ESI de Marilda Emmanuel Novaes Lipp e Maria Diva Monteiro Lucarelli. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011, páginas 15 -17.

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Psicóloga Tamires Alencar de Souza –  CRP 11/09543

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