A epilepsia é uma das condições neurológicas mais importantes e prevalentes durante o desenvolvimento da criança causando limitações físicas, cognitivas, sociais e psicológicas (Sabaz et al. 2003; Weglage et al. 1997).

Crianças com epilepsia são mais susceptíveis a déficits cognitivos e comportamentais (Montamedi e Meador, 2003). Os transtornos comportamentais mais comumente vistos nestas crianças são depressão, ansiedade, agitação, irritabilidade, distúrbios de atenção e isolamento social (Motamedi e Meador, 2003; Austin e Dunn, 2002).

A epilepsia pode induzir ou exacerbar distúrbios cognitivos e vários fatores podem contribuir: a patologia subjacente, a região da disfunção cerebral, a idade do início das crises, o tipo e a frequência das crises, problemas psicossociais, fatores emocionais, carga genética e efeitos adversos do tratamento (Motamedi e Meador, 2003; Piccirilli et al, 1994).

Na avaliação psicológica e/ou neuropsicológica é possível identificar as funções cognitivas e executivas preservadas e prejudicadas. Em crianças com hipótese diagnóstica de Epilepsia é importante avaliar a memória, linguagem, percepção, atenção, habilidade de visuoconstrução e demais funções executivas, pois caso haja alguma alteração nessas funções, é possível que a criança apresentem dificuldades de aprendizagem.

Memória:

A memória consiste na habilidade de registrar, armazenar e evocar informações (Lezak et. al, 2004) bem como utilizar estas informações para propósitos adaptativos (Fuster, 1995). Ela depende de vários sistemas que funcionam em paralelo e permitem a influencia de várias unidades de processamento, assim como o processamento de grande quantidade de informações (Wilson e Keil, 1999). A memória pode ser classificada como: memória de curto e longo prazo, implícita e explícita, de trabalho ou operacional, episódica ou semântica.

A avaliação de memória geralmente utiliza instrumentos que avaliam os diferentes subsistemas de memória explícitas tanto verbal quanto visual (Hermann et al., 1987), a qual poderá ser avaliada através de apresentação, evocação e reconhecimento de listas de palavras relacionadas e não relacionadas a um contexto semântico, sentenças, pares associados de palavras, histórias e números apresentados uma única vez ou com repetições, quando se trata de memória verbal (Mader, 2001). Já a memória visual, por sua vez, é avaliada pela apresentação, evocação e reconhecimento de conjuntos de desenhos geométricos e figuras complexas bem como apresentação e reconhecimento de faces (Hodges, 1996).

Linguagem:

A função de linguagem envolve numerosos processos incluindo o reconhecimento e articulação dos sons, a compreensão e produção de palavras e frases (Wilson e Keil, 1999). Os aspectos da linguagem envolvem mecanismos de compreensão auditiva, escrita e ainda um sistema léxico-semântico.

Distúrbios dae linguagem como as afasias, podem comprometer as capacidades de expressão, repetição, nomeação e compreensão da linguagem. (Howieson e Lezak, 1992). A avaliação neuropsicológica da linguagem abrange os aspecots citados incluindo medidas de fala espontânea, repetição, leitura, escrita, fluência semântica, nomeação e compreensão da linguagem (Hodges, 1996).

Percepção:

Percepção é a capacidade de associar as informações captadas pelo sistema sensorial a memória e a cognição a fim de construir uma representação interna do mundo externo e orientar o comportamento (Lent, 2004). Ela envolve o processamento de informações assim como a inibição ou seleção de informações irrelevantes pela açãoconsciente (Lezak, 2005).

A avaliação das funções perceptivas envolve atividades de discriminação, capacidade de síntese visual, reconhecimento, reprodução de figura e orientação.

Visuoconstrução:

A habilidade visuoconstrutiva combina a atividade perceptual às respostas motoras com componentes espaciais (Lezak et al., 2004). Déficitsnestas funções são expressos pelo comprometimento de um ou mais aspectos das relações espaciais como istorção de perspectiva, angulação, tamanho, julgamento de distância ou dificuldade em considerar integrar detalhes (Howieson e Lezak, 1992).

A avaliação das capacidades visuoconstrutivas engloba duas classes de atividades: desenho e construção ou montagem.

Atenção:

A atenção constitui aspecto central na avaliação neuropsicológica, pois ela influencia de maneira determinante todos os outros domínios cognitivos, inclusive a função executiva (Mesulam, 2000). Os componentes mais aceitos para definir a atenção são: atenção sustentada, atenção dividida, atenção alternada e atenção seletiva (Strauss et al., 2006).

As funções descritivas acima são caracterizadas como cognitivas, pois estão envolvidas na recepção a informação, processamento e expressão da ação diferindo das funções executivas que são funções de nível superior responsáveis para o controle metacognitivo e direção da experiência mental (Lezak et al., 2004).

Funções executivas:

As funções executivas compreendem 4 componentes – volição, planejamento, ação intencional e desempenho efetivo. Funções mentais superiores como planejamento, flexibilidade cognitiva, velocidade de processamento de informações, memória de trabalho, controle inibitório, iniciação da ação e auto-regulação são atribuídas ao conceito e funções executivas por diversos autores (Lezak et al., 2004; Stuss, 2002; Luria, 1966).

Estas funções permitem que o sujeito determine metas, trace estratégias para cumpri-las, execute e adapte estas estratégias conforme as demandas do ambiente mesmo através de longos períodos de tempo (Burgess e Alderman, 2004). Ademais, as funções executivas são fortemente vinculadas à novidade da tarefa.

Dessa forma, conclui-se que crianças com epilepsia apresentam com maior frequência problemas comportamentais, cognitivos e acadêmicos do que crianças com outras doenças crônicas e crianças normais (Dunn e Austin, 1999). Mesmo que tenham nível intelectual normal, a prevalência de problemas educacionais nas crianças com Epilepsia é maior do que o esperado quando comparada com seus irmãos (Bailet e Turk, 2000). Problemas de aprendizagem específicos estão presentes na maioria das avaliações neuropsicológicas destas crianças (Vinayan et al., 2005).

Referência: Natalie Helene Van Cleef Banaskiwitz. Estudo da função executiva em crianças com epilepsia focal benigna da infância com pontas centrotemporais. São Paulo, 2012.

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